quando quero morrer falo
com deus digo
merda de vida deste-me tu e
dá-me logo ele outra para comparar
— Bénédicte Houart, Reconhecimento
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Um clero português desmoralizado e materialista, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, força superior cosmopolita, invencível, adaptando-se com elasticidade inteligente a todos os meios e condições. […]
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, semcarácter, havendo homens que, honrados(?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
Um exército que importa em 6000 contos não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País […];
A Justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto defazer dela saca-rolhas;
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.
[…]
Instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar;
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio;
Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante, o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto, à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;
Uma literatura iconoclasta, – meia dúzia de homens que, no verso e no romance, no panfleto e na história, haviam desmoronado a cambaleante cenografia azul e branca da burguesia de 52 […];
E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares […] teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Luís, cujo reinado de paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos terciários.
O advento do materialismo burguês. […]
A nação, como o rei, ia cair de podre.
O conflito inglês e a revolução brasileira, dois cáusticos, puseram a nu, de improviso, toda a nossa debilidade orgânica, - miséria de corpo e miséria de alma.
Falecimento e falência. Ruínas. Montões de vergonhas, trapos de leis, cisco de gente, lama de impudor, carcassas de bancos, famintos emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem puder de egoísmos e de barrigas […].
A crise não era simplesmente económica, política ou financeira. Muito mais: nacional. Não havia apenas em jogo o trono do rei ou a fortuna da nação. Perigava a existência, a autonomia da pátria. Hora grande, momento único. A revolução impunha-se. Republicana? Conforme. […].
Há, além disso, bem no fundo deste povo um pecúlio enorme de inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesouro precioso, oculto há séculos em mina entulhada. É ainda a sombra daquele povo que ergueu os Jerónimos, que escreveu os Lusíadas. Desenterremo-la, exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse!
[…]
Resumindo: desastres, misérias, vergonhas, infortúnios, calamidades, subjugadas com energia e padecidas com nobreza, enseivariam de novo alento o coração exânime da pátria. O raio lascou a árvore? Brotaria com maior violência. A alma habita na raíz.
[…]
Alma! Eis o que nos falta. Porque uma nação não é uma tenda, nem um orçamento, uma bíblia. Ninguém diz: a pátria do comerciante Araújo, do capitalista Seixas, do banqueiro Burnay. Diz-se a pátria de Herculano, de Camilo, de Antero, de João de Deus. Da mera comunhão de estômagos não resulta uma pátria, resulta uma pia. Sócios não significa cidadãos.
— Guerra Junqueiro, Pátria, 1896
Ninguém pode ver acima de si. Com isso quero dizer: cada pessoa vê noutra apenas o tanto que ela mesma é, ou seja, só pode concebê-la e compreendê-la conforme a medida da sua própria inteligência. Se esta for de tipo inferior, então todos os dons intelectuais, mesmo os maiores, não lhe causarão nenhuma impressão, e ela perceberá no possuidor desses grandes dons apenas os elementos inferiores da individualidade dela própria, isto é, todas as suas fraquezas, os seus defeitos de temperamento e carácter. Eis os ingredientes que, para ela, compõem o homem eminente, cujas capacidades intelectuais elevadas lhe são tão pouco existentes, quanto as cores para os cegos. De facto, todos os espíritos são invisíveis para os que não o possuem, e toda a avaliação é um produto do que é avaliado pela esfera cognitiva de quem avalia.
Disso resulta que nos colocamos ao mesmo nível do nosso interlocutor, pois tudo o que temos em excedência desaparece, e até mesmo a auto-abnegação exigida em tal atitude permanece irreconhecida por completo. Ora, se considerarmos o quanto a maioria dos homens é de mentalidade e inteligência inferiores, portanto, o quanto é comum, veremos que não é possível falar com ele sem, nesse ínterim, tornarmo-nos comuns (em analogia com o fenómeno da distribuição eléctrica). Compreenderemos, então, a fundo, o sentido próprio e acertado da expressão «vulgarizar-se» e procuraremos de bom grado evitar toda a companhia com a qual só podemos comunicar por intermédio da parte ignominiosa da sua natureza.
— Arthur Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida
A man in terror of impotence
or infertility, not knowing the difference
a man trying to tell something
howling from the climacteric
music of the entirely
isolated soul
yelling at Joy from the tunnel of the ego
music without the ghost
of another person in it, music
trying to tell something the man
does not want out, would keep if he could
gagged and bound and flogged with chords of Joy
where everything is silence and the
beating of a bloody fist upon
a splintered table
— Adrienne Rich, The Ninth Symphony of Beethoven Understood At Last As a Sexual Message, em Diving into the Wreck: Poems 1971-1972
Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais apareceram a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse. Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação. O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava, considerava-a como sua verdadeira mãe. A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devorarem tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem. Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo, os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra. O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida. Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras. Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro, mais magro e faminto. Então a mãe couve disse-lhe assim: “Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?” O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.
— Pedro Oom, 2 Histórias para crianças (emancipadas) que ilustram a diferença entre o amor filial e o amor conjugal (&etc, 1980)
— Hemingway said on a bet he could write a story in under 10 words. Here it is.
— fotografia de Bartók / Mikrokosmos, coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker, 1986
O círculo é a única figura geométrica definida pelo seu centro. Não há galinha nem ovo neste caso, o centro apareceu primeiro, a circunferência a seguir. A Terra, por definição, tem um centro. E só o louco que sabe isto é que pode ir onde quer, porque sabe que o centro o irá reter, impedir que voe para fora de órbita. Mas quando muda a percepção do centro, e pela força centrífuga vem à superfície, vai-se o equilíbrio. O equilíbrio vai-se. O equilíbrio, minha linda, foi-se.
— Sarah Kane, Teatro Completo (Campo das Letras, 2001)